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Resenha: documentário Tokyo Idols

Apesar de ser descendente de japoneses e gostar muito da cultura dos meus ancestrais, alguns assuntos nunca despertaram o meu interesse, como é o caso das idols. Foi então que surgiu como sugestão, no meu painel da Netflix, o documentário Tokyo Idols, e eu resolvi assistir para tentar entender melhor esse mundinho. Depois de vê-lo, me senti na obrigação de falar sobre ele por aqui, já que a cultura idol faz parte do cenário kawaii… só que de uma maneira bem complexa e problemática.

Para quem não está familiarizado com o termo, as idols são meninas jovens e kawaii, que geralmente seguem carreiras como cantoras, atrizes ou modelos. Até aí, tudo ok. Porém, as idols iniciam suas carreiras, geralmente, em torno dos 10 anos, e a maioria de seus fãs são homens adultos, muitos de meia idade, obcecados pela imagem de fofura e pureza que elas transmitem. Esses fãs gastam verdadeiras fortunas com suas idols preferidas, seja acompanhando seus shows ou comprando fotos, tickets para meet and greet (os famosos encontros japoneses de aperto de mão, que até então era uma das únicas coisas que eu sabia sobre a cultura idol) e produtos dos mais variados tipos. Em troca, as idols estão sempre trabalhando duro em suas carreiras e seguindo regras bem rigorosas de comportamento, que incluem até a proibição de envolvimentos amorosos.

O documentário Tokyo Idols acompanha a vida de algumas idols iniciantes e seus respectivos fãs, apresentando em certos momentos a análise de jornalistas, um sociólogo e um analista de economia e indústria. Eu comecei a assistir o documentário já imaginando que ficaria com dó dessas meninas, mas os sentimentos de agonia e repulsa por esse cenário acabaram sendo predominantes. Por um lado, é inspirador ver o esforço das idols, trabalhando o tempo todo para evoluírem suas coreografias e técnicas vocais, assim como é muito bonito ver o apoio da família para que elas sigam seus sonhos. Mas, ao mesmo tempo, é desesperador que o sucesso delas dependam tanto dos fãs, de um contato intenso com eles e de ter que sempre atender às suas expectativas de atenção.

Conforme o documentário vai se desenrolando, vamos entendendo melhor como surgiram as idols, o significado dos encontros de aperto de mão dentro da cultura japonesa e como essa indústria é muito, mas MUITO rentável. Chega um certo ponto do documentário que você começa a ter pena de todos os envolvidos nessa indústria, já que as meninas são obrigadas a treinarem muito e se esforçarem para manter a aparência e comportamento padrão do que é esperado da mulher japonesa, que é ser jovem, delicada, pura e atenciosa. Enquanto os homens, embora saibam que nunca haveria um envolvimento amoroso com suas idols, eles gostam desse contato porque têm certeza que não serão rejeitados, e isso vêm muito do medo dos japoneses em geral de se relacionarem, ou simplesmente não terem a auto estima de que atenderão aos requisitos da sociedade para serem pessoas “namoráveis”. E um problema vai alimentando o outro de forma cíclica.

Obviamente o grupo AKB48 também é citado no documentário. Para quem não conhece, essa é a banda de idols mais famosa do Japão – elas são até conhecidas como as idols da nação. O grupo conta com 300 integrantes, sendo que apenas 80 fazem parte do time principal, que é escolhido por votação do público todos os anos. Para você ter uma ideia do quanto elas são queridas, o evento de anúncio das idols escolhidas chega a ser transmitido pela televisão. E é bem engraçado que, nessa parte do documentário, um fã comenta que está torcendo para sua idol preferida, já que ela está fazendo 17 anos e, se ela não conseguir entrar para o time principal naquele ano, talvez ela não consiga mais por estar ficando velha. É uma profissão em que se começa jovem por ter um prazo de validade muito curto.

Idols são fofas? Claro! Mas é assustador conhecer essa indústria mais a fundo? Demais! Aí fica o questionamento: de quem é a culpa? Dos homens de meia idade solitários? Do culto dos japoneses à virgindade? É difícil digerir e julgar tudo isso, ainda mais sob o nosso olhar ocidental, onde também temos nossos próprios problemas relacionados ao papel da mulher diante da fama. Eu me peguei questionando: será que uma MC Melody é tão diferente de uma idol? Porque ambas podem ser vistas como figuras que atendem à padrões de sexualização, cada uma a seu modo, de acordo com sua cultura. Mas, ao mesmo tempo, elas também são mulheres empoderadas por optarem ser protagonistas de suas próprias histórias, por batalharem por seus sonhos (e isso, na cultura japonesa, é bem raro). E então, como atingir a fama se você não dança conforme a música? Convido você à assistir Tokyo Idols e tirar suas próprias conclusões.

O documentário Tokyo Idols tem 90 minutos e está disponível na Netflix.

||||| 6 Curtir |||||
  • Escrito por Luciana Midory

    Designer, caçadora de coisas fofas e especialista em sair de olhos fechados nas fotos. Além de coisas cute, gosta de tudo o que é amarelo, oriental, bizarro e singular.

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6 Comentários

  • Yuri S

    20 de março de 2018 às 19:56 Responder

    Luciana! E aí, tudo bem? Apareci! Demorei um tempo pra arrumar um teclado novo e depois começou a bater o maior desânimo com blog, só ia lá escrever o que tinha e é isso. Sabe como é, né? Agora quero retomar a rotina de visitar uns blogs, principalmente depois desse mês que tá bem corrido, mas muito bom.

    Enfim, quando sair desse post aqui vou direto pra Netflix salvar o documentário na minha lista. Acho as culturas asiáticas atualmente muito creepy. Vejo essa fascinação assustadora de homens velhos com menininhas super novas, como no k-pop. E quero entender mais disso, de onde vem, porque super bizarro, né?

    • Luciana Midory

      29 de março de 2018 às 10:32 Responder

      Yuri, eu senti a sua falta por aqui! Mas entendo perfeitamente o que é parar de blogar por um motivo e depois acabar desanimando… O blog exige muita energia pra quem gosta de fazer tudo bem feito, como você, mas espero que você consiga voltar ao ritmo no seu blog e também a nos visitar ❤️

      Quanto ao tema do post: sim, a cultura coreana de idol também é bem assustadora! Quando o líder do Shinee se suicidou eu li vários artigos comentando como a vida deles é muito regrada e sacrificada… Não sei se você sabe, mas as integrantes do 2NE1 tinham que manter a virgindade até mais ou menos 30 anos! Era uma cláusula de contrato e acho muito triste eles terem a vida pessoal tão controlada assim. Enfim, se você assistir Tokyo Idols, me conta o que achou!

  • Cássia

    27 de março de 2018 às 13:45 Responder

    Oi, Lu!

    Eu já tinha ouvido falar de Idols, mas não conhecia essa “cultura” mais a fundo. Confesso que fiquei chocada e irritada com o lance dos caras de meia idade, com o fato de uma menina que irá completar 18 anos ser considerada muito velha e por tudo começar cedo demais. Acho que vou acabar assistindo ao documentário para entender melhor a respeito do assunto e poder tirar minhas próprias conclusões.

    Obs.: Gostei bastante da maneira que você foi desenvolvendo essa postagem.

    Beijãoo :*

    • Luciana Midory

      3 de abril de 2018 às 18:19 Responder

      Cássia linda, fico feliz que você tenha gostado do desenvolvimento do texto! Acho que isso veio muito do próprio documentário, que foi mostrando a complexidade de todo esse cenário bem aos poucos. Esse foi um texto difícil de escrever porque não tenho o hábito de problematizar as coisas aqui no blog, mas achei que tocar nesse assunto seria bem interessante para que o blog seja verdadeiro com todas as faces da cultura Kawaii. Infelizmente, nem tudo o que queremos transmitir é o que as pessoas entendem… No caso, onde as meninas se vêem vendendo fofura e arte, os caras vêem sexualidade e solução pra solidão
      Enfim, já tô falando demais ahahahaa! Se assistir ao documentário, volta aqui pra contar o que achou

  • Dai Castro

    31 de março de 2018 às 13:54 Responder

    Esses dias estava conversando com meu namorado sobre essa questão de relacionamentos da cultura japonesa, como a cultura de lá parece reprimir as pessoas nessa questão e quanto isso tem a ver o surgimento desse tipo de adoração bizarra!
    É realmente dificil se deparar com esse tipo de assunto e não sentir repulsa, é uma questão delicada que envolve crianças expostas as expectativas da mídia e de um público com um olhar tão doentio sobre essas meninas e ao mesmo tempo, pensar que é considerado “natural” pra eles.
    É complicado falar sem julgar, ainda mais por não conhecer direito esse assunto e o que isso representa para a cultura e entretenimento do país… O documentário parece bem interessante mostrando também o lado das meninas que se esforçam tanto pra conquistar os seus objetivos!
    Mas, não posso negar, que bate uma revoltinha aqui dentro quando paro pra analisar todo o contexto

    • Luciana Midory

      4 de abril de 2018 às 12:38 Responder

      Dai, sua análise sobre o assunto foi maravilhosa… É realmente complicado julgar sem viver dentro da cultura, mas sob nosso olhar ocidental as coisas ficam realmente chocantes. O relacionamento no Japão é uma questão bem complexa, existe uma série de exigências para que você seja considerado um bom partido, além de uma série de comportamentos e deveres que são bem rígidos, bem diferente daqui… Mas já que você se interessa pelo assunto, super recomendo o documento, e espero que goste

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